Privativos, jalecos e empatia

Atualizado: Set 28


Por Douglas Crispim






De repente, o médico do mais alto escalão acadêmico, prático, acenou a cabeça e cumprimentou o técnico de enfermagem durante uma passagem no corredor. De repente algo inédito mexia a ordem natural das coisas. Ao olhar para o lado, não havia outra pessoa ali para receber aquele aceno. De longe pude perceber o não verbal de surpresa, seguido de um “oxe, eu hein!”

Cortinas abertas para uma nova era, finita, diferente, cruel. A guerra foi declarada. No campo de batalha, as vestimentas coloridas eram as mesmas para todos os que lutam. Da noite pro dia, máscaras cobriam os bigodes e dentes, toucas os cabelos variados, modelos sem cintura, largos, com bolsos dos dois lados da calça e um outro no peito substituíram a indumentária tradicional que permitia a identificação lá de longe. Agora, os crachás pequenos, dentro dos bolsos, ofuscavam ainda mais a primeira impressão, foi uma confusão danada!

De repente, uma moção de luta, de sobrecarga, de tristeza coletiva, de vestiários e de medo, uniu cada indivíduo num pensamento de grupo que parecia ser intransponível. Agora todos estão olhando na mesma direção, e não enxergam bem a luz no fim do túnel. E lá vai o povo trabalhando, e entre “bom dia”, “boa tarde”, “bom descanso” era possível imaginar uma afinidade que esquecesse as diferenças de gênero, cor, origem. Todos respirando e fugindo de um mesmo vírus, vestindo uma mesma roupa.

Me lembrei de certa vez, quando eu conversava com um monge que estava no Brasil, e perguntei por que eles raspavam a cabeça. Ele dizia que Sidarta Gautama havia raspado antes de se tornar Buda porque era sinal de nobreza ter cabelos grandes, e que raspar a cabeça também o forçava a não se preocupar com a estética. Eu olhava as toucas e roupas privativas, e imaginava os monges. Mas os monges buscavam a iluminação, aqui o povo queria mesmo que este vírus fosse embora...

E lá vai a curva epidêmica achatando e decaindo. A gente começa a imaginar o ar mais puro, com menos vírus, como se pudéssemos vislumbrar um “prana” inspirado pela primeira vez, sem ter que se esconder do outro que observa. Talvez agora, os rostos voltariam a aparecer, cada um mostrando a nudez do seu, sorridente ou de luto.

E então eis que surge o primeiro jaleco. Branco como a neve mais alba, cinturado, com bordado nobre, logomarcas como brasões de cavalarias, ali escrita a origem do cavaleiro. O currículo vem estampado, a pessoa vem ali dentro, como um envelope de presente. Mas Zygmunt Bauman apareceu alertando que “a afinidade nasce da escolha, e nunca se corta este cordão umbilical. A menos que a escolha seja reafirmada diariamente e novas ações continuem a ser empreendidas para confirma-la, a afinidade vai definhando, murchando e se deteriorando até se desintegrar.”

Então os corredores são invadidos a cada troca de plantão, e alguns profissionais vestem coletes, outros uniformes, outros jalecos e é possível observar os grupos que se cruzam nos corredores, baixando as cabeças ao passar pelos outros. Ali no meio, o profissional da limpeza segue organizando o chão, e de repente parece que é visível somente a alguns pares de olhos. De vez em quando receberá um “bom dia”, vai olhar para os lados, pensar em silêncio: “oxente!”.

Ficaremos na torcida para que alguns resolvam mudar o mundo, bem devagar, começando no bom dia, porque a guerra, na verdade, não acabou.

Douglas Crispim é médico geriatra e paliativista. Atuou na linha de frente da pandemia COVID-19 e coordenou projetos de apoio a comunicação de notícias difíceis em hospitais.



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